A promessa da Inteligência Artificial sempre foi a mesma: libertar-nos de tarefas maçantes, aumentar nossa produtividade e nos dar mais tempo para o trabalho estratégico e criativo. De repente, a IA se tornou o centro das discussões corporativas, a solução mágica para a eficiência.
No entanto, um estudo recente, citado pelo TecMundo, revela um paradoxo inquietante: em vez de diminuir a carga de trabalho, a IA a tem intensificado, afetando negativamente o desempenho dos profissionais.
O que está acontecendo? Por que a ferramenta que deveria nos dar asas está, na verdade, nos sobrecarregando com uma nova e invisível segunda jornada?

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A Nova Segunda Jornada: O Trabalho Oculto da IA
O problema principal reside no fato de que o uso da IA não é um processo passivo. Ele cria uma série de tarefas adicionais que, na maioria das vezes, não são reconhecidas ou contabilizadas. Vamos chamá-las de “trabalho oculto da IA”.
- O Artesanato do Prompt Engineering: Acreditava-se que interagir com a IA seria tão simples quanto fazer uma pergunta. A realidade, porém, é bem diferente. Para obter um resultado preciso e útil de uma ferramenta como o ChatGPT ou o Midjourney, é preciso dominar a arte da “engenharia de prompts”. Isso exige tempo, experimentação e, muitas vezes, múltiplas tentativas e erros. O profissional precisa se tornar um especialista em “falar a língua da máquina”, e essa curva de aprendizado adiciona uma nova e complexa tarefa à sua rotina.
O Fardo da Verificação: A IA, em sua forma atual, não é infalível. Ela tem uma tendência perturbadora a “alucinar”, ou seja, a inventar fatos, referências e dados com total convicção. Isso significa que todo e qualquer conteúdo gerado por IA — seja um texto, um código ou um relatório — deve ser meticulosamente verificado e revisado. O que era para ser uma tarefa de 5 minutos, se transforma em uma checagem minuciosa de fontes e informações, consumindo um tempo valioso e adicionando uma camada de ansiedade sobre a precisão do trabalho final. A confiança cega na IA é perigosa, e a desconfiança justificada exige mais trabalho humano.
- A Carga Cognitiva e a Pressão por Ser um “Especialista”: A mera presença de uma nova tecnologia no ambiente de trabalho já gera uma pressão intrínseca. De repente, espera-se que todos se tornem fluentes em IA. O profissional sente a necessidade de estar constantemente aprendendo, acompanhando atualizações e tentando se manter à frente de uma tecnologia que evolui em velocidade vertiginosa. Essa sobrecarga cognitiva, somada à frustração de não conseguir os resultados esperados, leva ao estresse, ao esgotamento e, como o estudo aponta, à queda no desempenho.
O Erro de Estratégia: A Falha na Implementação Corporativa
O problema não está na IA em si, mas na maneira como as empresas a têm implementado. Muitas organizações adotaram a tecnologia de forma precipitada, sem uma estratégia clara.
- A Falta de Treinamento Adequado: A maioria das empresas simplesmente disponibiliza a ferramenta e espera que os funcionários a usem. Sem treinamento formal, sem guias de melhores práticas e sem um plano de adoção, cada profissional precisa aprender por conta própria, reinventando a roda e cometendo os mesmos erros. O que era para ser uma transição suave se torna um experimento caótico e frustrante.
- Processos Desatualizados: A IA foi simplesmente inserida em fluxos de trabalho já existentes. Em vez de repensar como o trabalho é feito, as empresas apenas adicionaram uma nova etapa: “Usar a IA”. O resultado é uma sobreposição de tarefas, onde o trabalho “antigo” (pesquisa e escrita manual) se mistura com o “novo” (geração e revisão de conteúdo por IA), sem que um substitua o outro de forma eficaz.
- Expectativas Irrealistas: Há uma expectativa generalizada de que a IA fará o trabalho de forma instantânea e perfeita. Quando isso não acontece, a frustração é grande e a pressão sobre o funcionário aumenta. Ele sente que precisa compensar as deficiências da IA, trabalhando mais rápido e com mais esforço.
Conclusão: Voltar à essência da automação
O estudo levanta um ponto crucial: a IA pode ser uma ferramenta incrível, mas apenas se for usada de forma inteligente e estratégica. O problema não está na tecnologia, mas na nossa abordagem a ela.
Para reverter esse quadro, é preciso parar de ver a IA como uma solução mágica e começar a encará-la como uma ferramenta que precisa ser dominada. Isso requer investimento em treinamento, revisão de processos e, acima de tudo, a compreensão de que o objetivo não é ter uma máquina que faz tudo por nós, mas sim uma que nos ajude a liberar nosso potencial.
O verdadeiro valor da IA só será percebido quando pararmos de nos sobrecarregar com seu uso e, em vez disso, a integrarmos de forma a realmente nos libertar para a criatividade e a inovação.
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